O Conto das Três Lajes

O Berço do Buraco Negro

Nos mudamos a Bastos Tigres quando eu tinha por volta dos oito anos, a idade mais sábia. Com essa idade era possível entender as sutilezas, reparar os detalhes que compunham tanto o cenário como o contexto ao qual eu estava inserida. A casa tinha três lajes que eram palcos para diversas aventuras, além de ficar no topo de uma ladeira de onde podia-se ver a quebrada inteira. Casas de concreto e, algumas de madeira, coexistiam sem nenhuma harmonia, exceto ao entardecer. A paisagem sempre ganhava um tom poético ao pôr do sol, e até os córregos cheios de lixo e mato, se sentiam mais belos naquela hora. 

Éramos nove pessoas compartilhando uma casa de três pequenos cômodos, e por incrível que pareça, havíamos deixado um lugar ainda menor onde a convivência tinha se tornado insuportável. Justo nessa época minha família deixou de ter discussões horrendas e as dinâmicas do grupo passaram a ser bem mais saudáveis e dignas. Eu já conseguia entender, intuitivamente, que a gente só alcançaria a paz se tivesse espaço, e que o espaço aumenta na mesma proporção que o dinheiro.

Apesar da área útil bem pequena, um quintal gigantesco surgiu como recompensa a tanto aperto. Alguns metros eram mais especiais que outros. No pátio da casa, havia um pé de goiaba, mas não saía um só fruto sem um verminho.

A segunda laje era menor, guardava um canteiro que parecia um mini terreno baldio, com algumas ervas daninhas, pedras arenosas e um duende de enfeite, pequeno e cansado.

Porém, era na terceira laje que tudo acontecia. Ali juntávamos as crianças do bairro e fazíamos brincadeiras diversas. Era como um grande centro cultural onde ensaiavámos coreografias, pintávamos e praticávamos esportes: queimada, rouba-bandeira e taco. Tudo que chamávamos de infância antes da popularização da internet.

A minha laje favorita, no entanto, carregava um mistério bem peculiar: um buraco… negro em uma das paredes. Gosto de imaginá-lo como o conceito físico, mas era o resultado de uma construção muito velha e amadora. Bater laje é uma arte que poucos dominam. Nunca questionei para onde aquele buraco dava, apesar das incontáveis vezes que enfiei a minha cabeça lá dentro tentando enxergar o seu interior. Não se via nada. A luz do sol só conseguia alcançar o primeiro pequeno metro, e a escuridão fazia questão de marcar as fronteiras com violência. No limite do horizonte de eventos, podia-se ver uma rocha, mas o restante era apenas breu. Com o tempo, obviamente, naturalizamos de tal maneira que o buraco virou uma espécie de depósito, com a diferença de que nunca mais seria possível recuperar nada que fosse sugado por ele. Virou o cemitério de muitos brinquedos, cordas e inúmeras bolas que acabavam caindo, sem querer, ali.

Além disso, o buraco negro recebia quase tudo que precisasse ser desovado com descrição. Folhas de um diário onde confessava o amor por David foram picadas e arremessadas ali dentro, deixei de amá-lo dias depois. Flores que minha tia recebeu de um ex-namorado receberam o mesmo fim, vingando um trato mais seco direcionado a mim em uma ocasião qualquer. Terminaram. Porém, da lista vasta de objetos “engolidos” o que mais me marcou foi uma bala. Não o doce, uma bala de revólver mesmo. Vi quando meu tio a descartou com as pontinhas dos dedos. Pensei ser uma bituca de cigarro, mas o barulho do metal batendo contra o piso despertou a minha curiosidade. Só vim a reconhecer aquele minúsculo cilindro depois de alguns anos, mas lembro que senti um arrepio estranho ao manuseá-lo.

Tio Marcelo andava triste. Em uma conversa ouvi que ele tinha sido jurado por conta de uma briga, uma confusão arrumada em um baile charme.

“Cê tá metido com droga, Marcelo?” minha avó tremia. O desespero ao encontrar a arma embaixo da cama era tanto que ela não conseguia deixar de gritar. “Eu não pari, não botei filho meu no mundo pra ele se meter com coisa errada, Marcelo! Eu prefiro a morte do que ver um filho meu metido com droga…” 

Meu tio ouviu o sermão da minha vó quieto, mudo, os olhos tristes, mas não transbordavam água. Só depois de um tempo, conseguiu explicar a situação. “Eu vou falar com ele!” decretou Dona Maria, decidida a resolver a situação com as prórpias mãos, quis falar com o Nai, “o dono da boca” em seu nome. “Meu filho não usa droga, é rapaz trabalhador… Ele não merece esse destino, meu Deus…”

A distorção no espaço-tempo causada por aquele buraco sempre funcionava. Ele conseguia dar fim a tudo, até histórias. Sem pensar duas vezes, lancei a bala lá dentro com a convicção de que aquela timeline seria destruída. E foi! Uns dias depois, o humor de todos voltou ao normal: e eu sabia que aquela bomba tinha sido desarmada. Era minha laje favorita… porque era mágica.

Punk

Ao longo dos dois anos que moramos naquela casa, tivemos a companhia de alguns amigos de quatro patas. O pedido por um cachorro já havia sido procrastinado por muito tempo, mas eu e minhas irmãs já tínhamos idade e conhecimento para começar uma rebelião e assim o fizemos.

Xaninha foi a primeira. Encontramos a cadela em uma caixa grande onde havia mais uns cinco filhotes e num ímpeto de desobediência, Bruna saiu correndo com ela em seu colo enquanto a minha mãe berrava atrás dela soltando fogo pela boca: “Bruna Regina, você não ouse levar esse animal cheio de pulgas pra casa!”. Levou. Infelizmente, Xaninha escapava para seguir quem saísse ao trabalho toda manhã e em uma dessas desventuras, nunca mais voltou.

O segundo foi Peter, um vira-lata caramelo que teve a infeliz sorte de comer algumas ervas do quintal, mal tinha completado quatro meses, morreu.

A terceira foi Punk, e diferente dos demais, ela se adaptou muito bem ao nosso contexto. Eu detestava aquela cachorra, e a nossa relação ficou ainda pior depois que um dia, atentada como o demônio, Punk comeu um prato que tinha uma festa de escola como destino. Todo o ódio que senti por ter que faltar ao evento foi redirecionado à cachorra. Porém, ela tinha as costas mais quentes da região, era amada por todas as crianças e não foi fácil convencer a minha irmã de que ela merecia um castigo. A negociação durou horas, argumentos apresentados diante de um juiz, meu pai, que não estava muito interessado em ser justo exatamente. Após muita apelação, ganhei o caso e a sentença da cadela foi emitida: caminhar debaixo do sol durante quatro horas.

Conectada a uma coleira, Punk foi levada de um lado ao outro da pequena laje para aprender a não acabar com a comida alheia. Na minha cabeça fazia sentido e estava claro que aquilo era um castigo, mas hoje me pergunto: punição para quem? Só parei quando Bruna interviu: “Carol, tá bom já… ela já aprendeu!”. Não aprendeu. Menos de duas semanas depois, a cadela novamente se meteu com comida minha. A minha raiva foi tanta, que eu cogitei jogá-la para dentro do buraco na terceira laje, mas fiz pior…

Peguei a cachorra, aproveitando do fato de que ninguém estava em casa, e fui passear com ela pelo bairro. Não sabia o que ia fazer e à medida que fui ficando longe de casa, a coragem de abandoná-la foi se dissipando. Eu não podia deixá-la à própria sorte na rua. Já era baixo o que eu estava fazendo, covarde e cruel, mas abandoná-la seria demais. Foi então que dois meninos se interessaram e com impressionante facilidade levaram-na para casa. Punk tinha novos donos.

Obviamente, as consequências daquele ato foram diversas, a pior delas foi ver Bruna chorando a saudade da cachorrinha. Não me dirigia o olhar, nem brincou comigo durante muito tempo, mas eu não me arrependi. Punk tinha cruzado todos os limites do bom senso e eu não gostaria de vê-la nunca mais. Eu sabia que com o tempo, aquilo seria esquecido e assim foi.

A paz reinou novamente naquele quintal. 

Porém, Punk não era cachorra qualquer, e como uma fênix enviada direto do inferno, após uns sete meses, retornou. Não me pergunte como.

Um dia qualquer minha mãe entrou em casa e exclamou surpresa: “Carol, você não vai acreditar em quem está lá fora…”. Eu esperava qualquer resposta: o Silvio Santos, a Hebe, sua professora, Dr. Bezerra de Menezes, ou até mesmo o Senhor Jesus Cristo em pessoa, já que sempre falavam que ele ia voltar… qualquer nome seria mais bem-vindo do que Punk, mas era ela. Saí e dei de cara com o animal deitado na sua casinha com a língua para fora. Recuperando o fôlego como se tivesse acabado de executar um plano de fuga planejado minuciosamente. Rápido e preciso como só quem tem no peito o ódio e a motivação de se auto resgatar faria.

Minha irmã ficou extremamente feliz. Comemorava tentando segurar a cadelinha que ficou bem mais gorda em seu período fora. As duas ficaram ali dançando juntas durante muito tempo e vez ou outra, Punk me lançava uma mirada debochada como quem dizia “eu não vou a lugar nenhum, maldita!”.

Eu tinha certeza de que ela tinha voltado era para me afrontar. Já Bruna estava certa que ela voltou por puro amor.

O Quintal Encantado

Nesse mesmo quintal existia uma outra família composta por três idosos super sinistros, todos eles com mais de setenta anos e pareciam ter saído do casting de um filme de Natal estadunidense: aquela personagem pobre e enigmática viciada em alimentar pombos e que acaba dando uma profunda lição de moral aos protagonistas sobre o verdadeiro significado do Natal. A mais velha era a mãe, provavelmente quase centenária, mas eu nunca soube seu nome. Não andava muito, ficava algumas horas no sol em alguns dias da semana, mas a maioria do tempo era passado dentro da pequena casa. Os outros dois eram os irmãos Jorge e Antônio, mas o único traço de semelhança entre eles era o cabelo liso e branco. Um era alto e esguio, me lembrava um inseto pau, já Antônio era mais gordo e baixo, uma joaninha, e parecia ter apenas um suéter marrom que lhe dava um tom ainda mais melancólico. Ambos não passavam muito tempo por lá, saíam com frequência e estavam quase sempre bêbados. Viviam no escuro, a casa era pintada de azul e tinha um cheiro ruim de naftalina e cachaça.

Em uma tarde qualquer, a Velha Centenária morreu. Enquanto eu me preparava à aula, uma amiga da família entrou em casa com os olhos arregalados e sussurrou tremendo: “Paula, a véia tá caída no meio do quintal com um rombo destamanho na testa…” fez um círculo com as pontas dos dedos. Foi em direção a pia em busca de água, abriu a gavetinha que ficava justo embaixo do gabinete buscando uma colher. A mão nervosa apalpava os objetos, mas desistiu ao ver que não conseguiria dominá-los. Foi até o pote de açúcar e virou um pouco no copo d’água engolindo todo o conteúdo em seguida. As mãos tremiam e pareciam não querer deixar que ela executasse tão simples tarefa. O medo sequestrou suas faculdades motoras e nada ali podia funcionar com destreza.

Minha tia ficou pálida e começou a gaguejar ao tentar elaborar uma resposta. Fez o sinal da cruz algumas vezes enquanto tentava reunir forças e coragem para resolver a situação. “Va… mo… lá…” tentou juntar as sílabas. “Ver… o que… aco…” não terminou a frase. As pernas bambearam e ela caiu sentada, como nunca mais testemunhei alguém fazendo novamente. Feito uma das goiabas podres, caiu e acabou por entrar na fila de quem precisava ser socorrida.

Não me restaram muitas opções, exceto sair com medo e sem saber o que me esperava. No pequeno pátio, avistei a senhora prostrada de lado no chão cinza, me apontou o indicador e falou algo que eu não entendi. Um fio de sangue saía de sua testa, escorria pelo o seu rosto até alcançar o chão e manchar o concreto. Meu coração disparou, sabia que a situação exigia que alguém agisse rápido e fui até o vizinho para pedir ajuda de adultos. Recolheram o corpo e o levaram ao hospital, mas ela já saiu do quintal sem vida. Foi a segunda vez que assisti alguém morrer e por pura coincidência sádica do destino, ambos tinham um ferimento no meio da testa e agonizavam. Ali eu vi que a morte, apesar de sorrateira, agiu rápido com aqueles moribundos e não demorou mais que uns poucos segundos para que aqueles corpos deixassem de estrebuchar.

O elo daquelas três pessoas desapareceu com o falecimento da mãe. A desconfiança de que aquele acidente se tratava, na verdade, de um assassinato surgiu após Jorge ter uma crise de choros pedindo perdão. “Foi sem querer!” exclamava. “Eu não queria…”. Todo mundo ficou com medo do que aquilo pudesse realmente significar, mas como em um acordo não verbal, concluiu-se que seria melhor não abrir aquela porta e ignoramos aquilo que poderia ser uma confissão de um assassinato. O homem ficou chorando do lado de fora da casa uma noite inteira, mas ninguém foi lá consolá-lo. Chorou por horas e então, de um instante para outro, o pranto cessou e eu nunca mais ouvi a voz dele. 

Os dois velhos tiveram que sair de lá, usavam a aposentadoria da mãe para sobreviver e sem o dinheiro, foram expulsos. Na tarde em que a senhora caiu, ou foi empurrada, tentaram retirar a mancha do sangue do chão por horas, mas ela parecia não querer ir a lugar nenhum. Aquela parte do quintal ficou algo “assombrada” e eu sempre espiava a velha caída por todos os cantos dali. A partir daquele evento, o quintal deixou de ser encantado.

A Primeira Maria

As horas corriam devagar naquelas tardes abafadas, típicas do clima tropical do Brasil. Não havia muito para uma criança de seis anos fazer na gigantesca casa, então eu me lançava à distração como podia. A coleção de CDs exebia muitos exemplares, cuidadosamente organizados por ordem alfabética na estante impetuosa e me convidava a explorar aquela infinitude de plásticos e papéis.

 — Fos… tes. Fostes bess… beso… u… ro…  Maria. Fostes…

As letras miúdas me faziam criar significados às tantas palavras desconhecidas.

— Vó? — pelo tom da minha voz era evidente que eu gostaria de interrompê-la. — Que que significa “Fostes besouro Maria”?

— Onde tá isso, menina?

— Aqui ó… “Fostes besouro Maria…” — indiquei no encarte rosa que trazia em mãos — Que que é “Fostes”?

Ela apertou bem os olhos: — Ih, filha… cê sabe que eu não sei? Quando a Dona Darlene chegar, a gente pergunta pra ela. Toma cuidado com os CDs deles, hein? Eles adoram esses CDs! Cê não vai me arranhar nenhum porque o Seu Márcio vira o bicho quando ele não ouve as música dele. Ele gosta de sentar naquela poltrona velha, bebericar uma cachacinha e relaxar no escuro escutando essas músicas aí… – concluiu dando de ombros.

— Só tô lendo, vó! Essa aqui tem o seu nome ó… “Maria… de Verda…de”.

Ela parou de mexer na panela e me encarou através dos óculos. Não reconheci muito bem o que diziam os seus olhos, mas aquele olhar captou completamente a minha atenção.

— Lendo? — A voz carregava uma intenção que eu não compreendia. Como se eu tivesse dito algo valioso. O mais importante que disse em toda a minha vida. — Você já sabe ler, é?

Não sabia ao certo qual resposta ela gostaria de ouvir.

— Não sei ler muito quando é um monte de palavra grande… Mas eu sei ler assim ó: “BRASTEMP.” Ou essa aqui… “Li… gue já…”, mas quando é grande assim, não. —  Respondi apontando às frases que via distribuídas na pequena copa.

Os olhos dela se transformaram em cascatas e em questão de segundos desaguaram em um abraço apertado. Disse que o mais importante de tudo nessa vida era saber ler. Eu duvidava muito disso. Inclusive, pensava que escrever fosse muito mais divertido, mas pude compreender a importância que o saber ler tinha pra minha avó. Ela desligou o fogão, coisa que nunca fazia, me tomou pelos braços e me arrastou até um quarto. Lá, apontou para uma cesta cheia de revistinhas, e como quem me confidenciava algo, disse: — Toma cuidado com os gibis da Camila, tá?

Naquela tarde eu fui apresentada à Turma da Mônica. Como a maioria das crianças que cresceu nos anos 90, eu também me apaixonei pelos quadrinhos. Em poucos dias, eu já tinha melhorado muito a leitura e a interpretação das histórias. Me contentava em ler nos dias que acompanhava minha avó ao trabalho, mas queria ter um gibi novo só pra mim.

Em uma dessas tardes testemunhei Camila ganhando um almanaque novo e meu corpo reagiu de uma maneira estranha… Naquele instante, eu pari. Não tenho ideia por quanto tempo gestei aquilo. Aos seis anos de idade, dei à luz a um sentimento potente, que impossibilitado de ser fecundado no útero, germinou no estômago. Brotou essa sensação estranha, que queimava, mas não ardia. Dada a época e o contexto, se materializou como um ser disforme e simbiótico, uma mistura entre inveja, raiva e esse vácuo que nasce na boca do estômago quando presenciamos injustiças.

— Ah, mãe… Eu já falei mil vezes! Eu não gosto das histórias do Chico Bento! Eu gosto das histórias da Magali!  Ma-ga-li! – respondia irritada. Nem sequer deu uma chance ao pobre Chico, cruzou os braços e fechou a cara num bico. — Essa eu não gosto!

— Camila, cê é muito mal agradecida, viu? Além de ir comprar pra você, cê ainda quer escolher qual? — rebateu a mãe indignada.  — Carol, aqui… toma! Pra você! Tá novinha!

Foi a primeira vez que notei meu coração palpitar de animação. Demorei alguns segundos em reagir, era difícil acreditar que, fácil daquele jeito, eu tinha ganhado um gibi novo. Só porque Camila não gostava do Chico Bento.

— Como é que fala, Caroline? —  indagou minha vó me trazendo à sala de estar novamente. — Não seja mal agradecida! Que que fala quando ganha um presente?

— Brigada! —  saiu num tom de voz quase inaudível…

— Brigada…?

— Brigada, Dona Darlene.

— De nada, Carol. Você vai fazer bom uso do livrinho… — respondeu a mulher sem tirar os olhos da própria filha.

— Isso mesmo, tem que ser agradecida! Agora vai lá pro quintal ler. 

Um dois, nem me viu… Desapareci por horas. Acho que foi esse o dia que, de fato, eu aprendi a ler. Depois surgiu o gosto por escrever. Inúmeras foram as vezes que risquei paredes, portas, objetos diversos. Escrevia em qualquer folha que encontrasse. Certa vez, desatenta, rabisquei o verso da certidão de nascimento de minha mãe, e apesar da bronca, recebi um grande presente: um diário. 

“Cê não me inventa de rabiscar em nenhum outro lado, cê tá me entendendo? Nenhuma outra folha, você só escreve aí…” – Minha mãe não sabia, mas naquele momento ela semeava um hábito que me acompanharia até os 33 anos. Uma coleção de memórias registradas em cadernos diversos. Alguns mais destruídos pelo tempo, outros repletos de desenhos e anotações aleatórias. Não me lembro de uma fase da minha vida na qual eu não escrevesse. Pode até soar cafona, mas me arrisco em dizer que escrever me salvou inúmeras vezes: da intoxicação ao me fazer vomitar palavras que se não colocadas para fora, me adoeceriam.

De um estado de objetificação profundamente enraízado, mas principalmente, me salvou da solidão que me era imposta estruturalmente… A bem da verdade é que quando eu escrevo, não estou mais sozinha.

Depois que pari o tal sentimento estranho comecei imaginar Camila morrendo das mais diversas maneiras. “Acidentes” projetados na minha imaginação. Afogamento: enfiava a cabeça da menina na piscina ininterruptamente enquanto ela tentava clamar por socorro. Em outros devaneios, eu incendiava seu quarto com todos seus brinquedos dentro. Outras vezes, usava as roupas das suas bonecas para enforcá-la. E era até com a sua própria bicicleta que eu a atropelava. Minha mente se tornou um lugar seguro para a existência de todo tipo de barbárie. O que não me faltava era criatividade… Mas sem dúvidas, a mais divertida era a execução por decapitação. Não pelo ato em si, rápido e sem dor, mas pelo evento! Reuniríamos todos na sala, uma guilhotina bem afiada posta ao centro, algumas palavras que trouxessem um tom fúnebre à cerimônia e sem chance para arrependimentos: o cumprimento da sentença. Logo depois, jogaríamos futebol com a sua cabeça… em um banho de chuva.

Dona Maria, minha avó, por sua vez, não ajudava em nada quando reafirmava para quem quisesse ouvir: “Carol morre de ciúmes de Camila!”. O que me fazia pensar em matar logo as duas mal tinha completado sete anos de idade.

Nunca houve espaço para dúvidas, embora ninguém precisasse me dizer nada: eu era a “neta da empregada”. Não existia um tratamento hostil, e isso me deixava ainda mais confusa ao odiá-los. Não era óbvio, mas estava lá… No tom submisso da minha avó ao chamar a Patroa de “Senhora” como quem se direciona a alguma divindade. Na quantidade de horas que ela tinha que trabalhar limpando a casa dos outros, educando os filhos dos outros e cozinhando comida farta e deliciosa pros outros. E, acima de qualquer coisa, estava no lugar onde ela podia comer. Não só no local, exatamente, mas também nas condições. Comia, sim, depois que servia o almoço de todos e somente na copa. Reafirmava que se sentia melhor assim até porque se convenceu de que não sabia comer. Como se fosse possível alguém não saber fazer uma ação tão orgânica. Sem mencionar as várias vezes que lhe interrompiam… “Maria, faz um molhinho agridoce pra gente?” ou “Maria, traz aquela farofinha com pimenta?” Me tirava do sério. Imaginava todo santo dia minha vó parando de comer, levantando para buscar qualquer coisa que aquela família pedisse no meio do jantar e com hostilidade arremessando o objeto em cima da mesa: “Vai cair a porra da mão de vocês se levantarem o cu da cadeira para buscar essas merdas que vocês vão comer?”. Todos ficariam surpresos com a audácia dela, enquanto eu, no canto da sala, apreciaria a cena tomando um bom suco de laranja naquelas taças chiques rindo… mentalmente.

Crescer assistindo esta dinâmina é confuso. Minha avó dedicou a vida ao bem estar de uma família branca que lhe havia contratado como empregada doméstica. A última família para quem trabalhou antes de se aposentar. Essas pessoas também tinham crianças, Camila e Rafael, por quem era reservado muito amor e carinho e tudo que pertencia a eles respingava em nós, minha irmã Bruna, e eu. As roupas que chegavam a nós já usadas, os brinquedos que chegavam ultrapassados, o material escolar já gasto…

Não é que eu duvidasse do afeto daquela família por minha avó, e tampouco desconfiava de que, em tempos difíceis, eles a ajudariam como pudessem. O meu incômodo surgia na estrutura que essa dinâmica se dava. Sob qual justificativa e preço?

“Magina… Maria é praticamente da família…” foi o que o filho mais novo do casal disse um dia lançando seu corpo pra cima. Senti um enjoo súbito e um vômito da espessura de lavas, mas da cor do universo e tão repentino quanto a criação dele, saiu.

Foi nesse contexto de raiva, ranço e uma pitada de culpa que despertei para o absurdo que é ter uma empregada doméstica. Uma continuação, sim, do esquema escravocrata que perpetua, quando não aumenta, as desigualdades sociais baseadas em raça e classe em território brasileiro. O que me deixava mais intrigada é que tudo era camuflado como “emprego, oportunidade e amor”. Eles pareciam genuinamente felizes ao me verem. Queriam saber como eu estava na escola. As crianças, principalmente, tinham pela minha avó um tratamento de amor e respeito que parecia sincero. Chegavam do colégio e corriam para abraçá-la. Gritavam o seu nome em uníssono. Ela fazia o que faz de melhor: amava de volta. Fazia batatas fritas às escondidas para os pequenos. Comemorava as vitórias deles e, mais do que nada, amava vê-los crescer. Aquilo, apesar de confuso, não podia ser outra coisa: era amor. Afeto em forma bruta, pouco lapidada. A diferença é que pras duas crianças ricas, ela era Maria, mais uma entre tantas outras que passariam por aquela casa. Descartada e substituída quando alcançasse uma idade que a impossibilitasse de servir. Enquanto para mim, ela é e sempre será minha Vó. Minha Cara Vó Maria.

Carta que escrevi pra minha avó, observem os erros. “Cara vó Maria, você é super legal, eu acho que você devia descanssar mas um pouco, mas isso não importa, quero que você seja bem feliz beijos. Ass: Carol. Este desenho é pra você guardar.” E guardou.

Gratia Plena

Mariana enviou a mensagem ao namorado, Ricardo, na manhã daquela sexta-feira: “a gente precisa conversar, ok?”. Não sabia como contá-lo que a sua menstruação ia dias atrasada e que existia uma grande possibilidade de uma gravidez não desejada ter acontecido. O exame, daqueles de farmácia, vinha confirmar a suspeita: positivo. As duas listras tinham aparecido segundos depois da urina inundar o papel, e a esperança de que tudo aquilo não passasse de um susto se dissipou à medida que as duas listras rosas ficavam mais evidentes.

Como que conta para alguém que você conhece há não mais de seis meses que ele vai… ser… pai?

Ensaiou algumas vezes na frente do espelho, mas para cada ideia que surgia, uma série de reações exageradas invadiam a sua mente. E se ele se levantar e ir embora? Se ele começar a chorar? Ficar bravo? E se ele não quiser, ou pior… e se ele quiser? Paralisada por todas aquelas hipóteses, decidiu suspender o fluxo de pensamentos e, simplesmente, mostrá-lo o exame positivo. Pensaria em quê ou como falar, uma vez estivessem frente a frente.

Ricardo recebeu a mensagem e ficou imaginando o que poderia ter acontecido. Sabia que nada de bom vinha de um “a gente precisa conversar, ok?”. Era sério demais, nada parecido com o estilo da Mari. Deu uma volta mental nos últimos encontros que tiveram e não conseguiu encontrar nenhuma pista àquela mensagem tão séria logo pela manhã. Respondeu um singelo “ok” e sugeriu um encontro em sua casa por volta das 18h. “Prefiro encontrar no PP” foi o que ela respondeu. O bar onde tiveram o primeiro encontro. Achou o tom da mensagem contraditório ao cenário onde ela gostaria de ter a tal conversa, mas Mariana era um pouco paradoxal para ele. Às vezes, contraditória. Outras vezes, vaga… “Tá tudo bem, Mari?” começou a digitar, mas desistiu. Também preferiu encarar seja lá o que ela tivesse para falar ao vivo.

Chegaram. Pediram comida. Conversaram amenidades. Contaram da semana, do trabalho, da terapia, mas um silêncio repentino pediu que o casal ocupasse aquele espaço com o assunto pendente.

“Ricardo, não tem maneira fácil de te falar isso…” ela começou. Ele estava compenetrado, seu coração batia um pouco mais rápido e um gole na cerveja foi a saída para segurar a ansiedade. “Minha menstruação tá atrasada… e eu… bem, eu nunca atraso…”

Ele a encarou em puro estado de perplexidade. Sacudiu a cabeça rapidamente numa tentativa de organizar os pensamentos. “Como é?” era exatamente o que ele gostaria de perguntar, mas parecia ter a pressão baixa demais para falar qualquer coisa. O como era óbvio: uma trepada rápida numa quarta-feira de manhã aproveitando que ele já tinha acordado excitado. Um sexo tão sem propósito que ela nem chegou perto de gozar. Míseros cinco minutos de penetração frenética. Um entre e sai rápido demais para garanti-la um orgasmo, longo o bastante para reproduzir uma pessoa… em potencial.

Ricardo parecia ter sido sugado pelo vácuo. Reparou detalhes dela que antes não pareciam estar ali. Não que não tivesse visto, mas agora, ele botava reparo. Os olhos meio puxados. A covinha apenas do lado direto da bochecha. Se surpreendeu ao notar que ela tinha sardas! Sardas que antes se escondiam em seu rosto, o mesmo rosto de semanas antes. Meses, aliás. Três ou quatro meses? Não sabia dizer. Mas só notou as sardinhas abaixo dos olhos naquela noite. “Será que meu filho vai ter sardas também?” era o que pensava quando ela estalou os dedos na cara dele.

“Alô? Tem alguém aí? Pelo amor de Deus, fala alguma coisa… Cê tá me olhando de um jeito muito estranho…”

“Desculpa.” – retrucou automaticamente enquanto levava as mãos na cabeça e puxava os cabelos devagar. Não tinha ideia do porquê pedia desculpas, mas não conseguiu elaborar outra coisa.

Mariana, então, tomou a frente. Decidiu contá-lo sobre o exame feito. Falar logo… de uma vez. Retirou a caixinha da bolsa, olhou bem nos fundos dos olhos dele e tão pronto começou a frase, algo repentino e violento, a interrompeu. Ao olhar para baixo, ela pôde ver uma mulher caída com a cabeça em seus pés. A mulher apontava para os céus sorrindo e balbuciou algo que nenhum dos dois conseguia entender. Uma imagem tão repentina e surpreendente, que saltou um pouco da cadeira. Seu estado parecia urgente ou grave, mas de nenhuma maneira era óbvio.

Ricardo a ajudou a se levantar. A mulher piscou os olhos uma, duas… três vezes, e como se tivesse voltado à realidade agradeceu as mãos benfeitoras que lhe reergueram. Foi em direção a sua mesa onde lhe entregaram água e tudo parecia ter voltado ao normal.

“Faz muito calor esses dias…” Ricardo comentou enquanto entregava a bolsa que também havia caído no chão de volta à dona. Sorria. Aquilo era o mais empático que conseguia ser. Reparou, no entanto, um pequeno bebê que dormia no carrinho ao lado da mesa. Eram parecidos. Pensou que, com certeza, o seu bebê se pareceria com Mariana ao nascer ao menos se tivesse sorte. 

Sentou-se novamente na mesa com uma energia renovada. Sorriu. “Fala… você ia me contar algo…” passou as mãos em seu ombro e logo segurou suas mãos. “Mas antes de mais nada, Mari, eu preciso dizer que a decisão é sua! Se realmente você estiver grávida, eu vou te apoiar de qualquer maneira em tudo que você decidir. Eu tô um pouco chocado, é verdade… É uma notícia e tanta! Quando você mandou a mensagem de manhã, pensei que ia terminar comigo… ou algo assim, mas… isso! Caramba, isso é muito mais do que eu podia sequer imaginar. E quer saber? Eu acho que tô feliz. Eu acho que não aconteceria se não fosse assim… A gente precisa confirmar isso logo. E você precisa parar… de beber… cerveja!” 

Mariana sorriu. Pela primeira vez desde que todas as suas suspeitas tinham começado, ela conseguiu rascunhar uma autoimagem como mãe. A maternidade era algo assustador e intimidador para ela, mas com Ricardo talvez as coisas pudessem dar certo. 

Entregou a caixa com o teste positivo a ele observou quando os olhos dele se encheram d’água e agora, o que era uma imagem distante, parecia ter se tornado real.

O bebê da mesa ao lado começou a chorar e o som agudo que saía da garganta da criança, fez com que ambos sorrissem honestamente… Aquele pequeno ser conseguiu transportá-los a um futuro inexistente ainda, mas que em questão de meses, seria a sua nova realidade. Se beijaram. Observaram a mulher, que minutos antes havia caído, se aproximando do carrinho do bebê para acudi-lo. Outro beijo. Estavam emocionados. Se abraçaram e compartilharam palavras ao pé do ouvido:

“Eu tenho medo…” – ela disse primeiro.

“Eu também.”

“Eu não sei se a gente dá conta.”

“Acho que ninguém dá…” Ele tentou confortá-la.

“Não, é sério! Eu tenho medo, Rick. Não sei se tô preparada pra mudar minha vida assim… do nada. Justo agora eu ia começar um mestrado…” – sua voz carregava uma angústia genuína , “Meu corpo vai mudar completamente…”

“Mari… eu sei,” —  ele segurou o rosto dela com as duas mãos e beijou seus lábios rapidamente  —  “… o que você quiser fazer, vamos fazer juntos. Você sabe que eu sempre quis ser pai, não esperava que fosse tão rápido assim, mas… sei lá… A gente tem trabalho, tem dinheiro, a gente se dá bem, a gente se respeita… Não é o pior dos cenários… Pensa pelo lado positivo, a gente podia ter 17 anos…”

“Ts, antes dos trinta e cinco também é gravidez na adolescência, Ricardo…” —  Ele caiu numa risada sincera. Adorava o senso de humor. Além do mais, tudo nela o atraía, e pensou que aquilo ali, apesar de todas as adversidades, poderia funcionar.

“Mas a gente tem que fazer um exame de sangue, não?” 

“Eu vou atrás de um laboratório amanhã cedo…”

“Mariana, pela amor de Deus, chega de cerveja por hoje…” —  falou enquanto retirava o copo de sua frente.

“Dei um gole para ganhar coragem. Eu tava muito nervosa…”

“Eu sei, mas a gente vai dar conta!”

“A gente vai dar conta…” —  ela repetiu sem atenção.

“A gente vai dar conta!” — ele reafirmou em um tom de voz certeiro.

Um beijo cheio de ternura e afeto finalizou aquele momento especial, que seria perfeito se a vida fosse um final de novela. No entato, a vida real é uma novela sem fim e a cena seguinte destruiu a imagem utópica e irrealista que aqueles dois construíram sobre filhos e novamente, algo abrupto interrompeu o casal.

Desta vez, uma pancada forte seguida de um grito pavoroso de desespero ecoou por todo o bar. Os olhos correram em uma varredura de território a fim de buscar a fonte daquele choro tão primitivo e desordenado. O que encontraram impactou a todos de tantas maneiras que todos no bar se entreolharam para confirmar se estavam decodificando os fatos da mesma maneira ou se por um breve instante, todo aquele elenco tivesse mergulhado na matrix: um bêbe caído de testa no chão.

A mulher que minutos antes tinha sofrido acidente parecido, agora estava de pé, parada, incrédula, e levava os braços armados em um colo para uma criança. Não foi necessário muito tempo para concluir o óbvio e trágico evento que tinha ocorrido: aquele bebê caiu do dos braços daquela mulher, em pé,  de testa… no chão. Um silêncio longo se fez presente e no bar só se ouvia a música ambiente e a pobre criança que não parava de chorar e clamava por qualquer socorro. Um homem, que poderia ser seu pai, a recolheu do chão e direcionou um olhar decepcionado e de raiva à mulher.

Foi o primeiro a julgá-la e, como se desse permissão aos demais, todas as barreiras sociais foram quebradas e o burburinho ficou intenso. Um verdadeiro açoitamento em praça pública. Em parte, muitos ali se sentiam em frenesi, e não havia uma só alma naquele recinto que não estivesse comentando com certa indignação o que seus olhos tinham acabado de ver. Os julgamentos vinham de todas as formas possíveis. Olhares, falas, cochichos. Porém, todos ali presentes compartilhavam um sentimento de culpa. O único que não se sentia culpado era o bebê que ainda não tinha idade suficiente para compreender a perversidade de tal sentimento. Um choro tão doído, que não parecia vir de um lugar corpóreo. Surgia no espírito, se é que ele realmente existe. Só pausava quando afogava um pouco no próprio pranto, ficava sem ar por alguns segundos e logo seguia gritando com mais e mais vontade. Ininterruptamente. A mulher tentava alcançá-lo, sem êxito. O homem, envergonhado, tentava evitar que a esposa chegasse ao filho, e segurava a criança com violência. Sacudia aquele pacote de um lado pro outro sem saber o que fazer.

“Por que você bebeu tanto?” – perguntou irritado, apesar de também estar bêbado.

“Eu não sei, eu… não… Eu sinto muito…” ela repetia enquanto enxugava as lágrimas.

“Você… Pra quê beber tanto?”

“Me dá ele aqui. Me deixa segurar meu bebê!” — suplicava a mulher. Nos seus olhos via-se pena, culpa, medo, raiva, mas ela era realmente incapaz de tomar a criança pelos braços. Como se algo a tivesse quebrado profundamente.

“Pra você deixar ele cair de novo?”

Mãe e recém-nascido pareciam dividir a mesma necessidade de colo. Ou, ao menos assim Mariana lia aquela cena toda, completamente absorvida. Obviamente, o clima de família doriana foi quebrado em um só golpe que acertou em cheio “os pais de primeira viagem”. Bem na mesa ao lado, havia um exemplo claro de um casal que não estava “dando conta”.

Ambos ficaram em silêncio escutando o choro do bebê e da mulher por muitos minutos. Uma enchente de medos invadiram ambos com brutalidade e se transformaram em um tufão de ansiedade que causaria destruição ao que viesse pelo caminho.

Se pudessem retomar os acontecimentos que desbocaram naquele encontro, nunca poderiam ter previsto as coincidências dos eventos que se desenrolaram naquela noite. Parecia um óbvio sinal de Deus e eles nem eram religiosos.

“Vamo embora?”, ele perguntou e ela concordou num gesto rápido com a cabeça.

“Pede a conta que eu vou mijar.”

Mariana subiu as escadas se sentindo culpada por ter dado um gole de cerveja. Culpada por não ter impedido o acidente. Culpada por não ter impedido aquela gravidez. Sabia que, em relação ao feto que carregava em sua barriga, sempre seria mais julgada, repreendida ou condenada por ser a mãe. Sentiu uma gota de empatia por aquela outra pobre que chorava envergonhada no salão.

Ricardo por sua vez estava em pleno estado de choque. Assustado. Queria conversar com Mari porque a verdade é que ele não se via nem um pouco preparado para ser pai, e sinceramente, eles nem se conheciam direito. Saíam há dois… três meses? Ele nem queria ser pai assim, sem planejamento. Já tinha até considerado a vasectomia no passado.

Mariana entrou no banheiro e deu de cara com um espelho. Se admirou por alguns segundos. Por que caralhos quis transar sem camisinha bem em período fértil? Virou de lado e até conseguiu ver o tamanho da barriga. E se fossem gêmeos? Imaginou dois bebês caindo no chão ao mesmo tempo. Lembrou que tinha umas tias-avós que eram gêmeas e, se não lhe faltasse memória, estava quase certa de que a genética dava um jeito bizarro de pular gerações e pregar algumas peças.

“Tia Marta e Tia Cleide? Eu acho que era Cleide…”, sussurrou enquanto buscava papel higiênico na bolsa. “Ou era Cleia? Era alguma coisa assim…” Quase não se deu conta do exato momento que toda a sua gravidez se dissipou em seus dedos. Nem gêmeos, nem filho único. A mancha de sangue no papel higiênico indicava a menstruação que chegava tarde, mas bem-vinda. Logo viu que tinha um pouco de sangue também na calcinha. Nunca tinha ouvido falar de falso positivo, mas aparentemente, esse tipo de coisa acontecia com ela. Sorriu aliviada. Pegou o exame de farmácia e depositou no lixo do banheiro do bar. Saiu dali convencida a buscar atenção médica imediata e a fazer uma laqueadura.

Giuseppe Adami, 57

Dona Maria é o ser humano mais doce que já conheci. O que sinto é gratidão por tê-la tido como influência em minha vida, mesmo que por breve tempo. Tinha por volta dos sete anos quando nos vimos pela última vez e lembro de muitos detalhes daquele último encontro já que se tratava do velório do seu genro. Nessa idade é assim, você não decide muito bem quem fica ou quem sai da sua vida e termos mudado de casa algumas vezes no decorrer da infância me despresenteou algumas despedidas antes da hora e amizades arrancadas ao meio. Não foi diferente com aquela senhora, uma Maria mais no meio de tantas. 

Contraditoriamente, aquela mulher terna e de fala mansa era casada com Seu Aulerindo. Um velho ranzinza e possivelmente, a pessoa mais rabugenta da história da humanidade. Autoritário. Machista. Religioso e rigoroso com os designos que acreditava ter recebido diretamente de Deus. Não conversava muito. Quando fazia, era sempre com outros homens e reservava palavras de puro desdém às mulheres que lhe cercavam. Independente da idade, éramos todas consideradas uma classe inferior de humanos, incapazes de executar a mais simples ação com eficácia. Não nos percebia autônomas ou dignas de subjetividade: fadadas à eterna objetificação. Homens como o Seu Aulerindo carregam a convicção de que saímos de suas costelas para cumprir apenas o papel de adornos neste mundo. Eu carrego a esperança de que eles já tenham entrado em extinção.

A ironia reside no fato de que, daquela união, não resultou sequer “um filho varão!” e sim, SEIS filhas.

Às crianças, de um modo geral, ele destinava um tratamento ainda mais agressivo. Sempre ríspido, com muito desprezo e sem nenhuma vontade de nos ter por perto. “Eu não gosto que cafumbe no meu copo!” berrava. Sequer tinha noção, ao certo, do que ele queria dizer com cafumbar. “Eu já disse que não gosto que cafumbe no meu copo!” e batia a mão pesada na mesa, fazendo a mesa vibrar e ruir tão alto que me dava vontade de fazer xixi.

Na minha cabeça Seu Aulerindo era o homem mais velho do mundo. A pele enrugada denunciava décadas. Muitas. O humor era de quem tinha séculos. Resmungava o tempo todo. Se irritava com tudo. Me fazia ficar às voltas com a dúvida: seria Seu Aulerindo apenas um velho mais carrancudo ou todos seríamos como ele na velhice?

Sempre me resultou muito curioso como aquele casamento funcionava. Ela, obviamente, não parecia ter permissão a dar opiniões e não se interessava por rebeliões diante de um trato seco e, muitas vezes, áspero. Em uma noite qualquer, em uma dessas conversas de adultos que as crianças sempre botam os ouvidos, escutei Seu Aulerindo contando ao meu pai como havia conhecido Dona Maria e explicava, sem qualquer resquício de culpa, como o casamento se concretizou:

“Eu fui lá e lacei ela”, foram as palavras que saíram daquela boca e me fizeram questionar a natureza da minha realidade.

Maria tinha treze anos quando o homem chegou à fazenda onde vivia e negociou algo com o seu pai. Seu Aulerindo tinha se tornado viúvo recentemente, e precisava de uma nova mulher que desse conta das crias, da casa, e do homem que ele era. A menina, que não era boba nem nada, saiu correndo. Não queria se casar, ainda menos com um homem tão mais velho que ela e correu. Ele, 23 anos mais ágil, montou em seu cavalo, pegou um pedaço de corda e a laçou. 

Descrente do seu destino trágico, Maria nunca mais se revoltou ou tentou fugir. Em conformidade com o que lhe foi reservado, e em um nível profundo de desassociação, se tornou aquele ser quase imaculado.

Saíram do sertão da Bahia para constituir uma outra família na periferia de São Paulo, zona sul, nos anos 90. Ali armaram um mercadinho onde vendia-se de tudo. Pães e pipas dividiam o lugar com gás e óleo de cozinha. De um lado, organizavam os doces, as especiarias e mantimentos diversos, do outro, os produtos de limpeza depositados em garrafas pets, isqueiros e fósforos e uma quantidade surpreendente de papel. Era o cenário perfeito para um incêndio que queimaria o bairro inteiro, mas paradoxalmente, o local exalava uma harmonia confusa. Com este ganha-pão criaram as filhas. Compraram um terreno, construíram a casa onde viviam e mais outras duas no fundo do quintal. Uma delas era alugada aos meus pais. A outra era ocupada por uma das filhas, Carmen Lúcia, e a sua família composta pelos dois filhos de idades aproximadas às nossas, Letícia e Léo, e seu marido, Tio Careca, que morreu logo no começo deste texto. De alguma maneira estranha, mas ao mesmo tempo bela, a gente foi se tornando algo parecido com uma extensão da família deles. Existia um senso de cuidado geral. Na periferia é assim, fica todo mundo de olho em todo mundo para compensar a falta de estrutura estatal. Fica todo mundo de olho em todo mundo para driblar a violência policial.

Letícia e Leonardo eram os dois pequenos e não foram necessários mais que seis meses para desenvolvermos uma relação muito próxima com ambos.  Um intenso sentimento de irmandade brotou porque a infância é campo fértil para amizades e foi fácil pra gente se conectar. As brincadeiras muitas vezes ganhavam um tom alucinado e do nada, aquelas quatro crianças despegadas simplesmente abraçavam o caos. Costumo dizer que flertávamos com a morte com a alegria de quem a desconhecia. Sem pesar muito as consequências de nossas ações porque, afinal das contas, se juntássemos as idades de todos do grupo, a soma não chegaria aos quinze anos. Em uma ocasião, por exemplo, minha irmã Bruna quis testar o fio da tesoura do Mickey que tinha acabado de ganhar no nariz de Leonardo. Com a permissão dele, veja bem, ela cortou aquela pele fininha que separa as duas narinas e assim que o sangue começou a jorrar, me lançou um olhar de desespero e clamou: “Traz papel higiênico!” como se com papel pudéssemos costurar o nariz da criança novamente. Em outra, entramos de acordo e usamos a sujeira das rodas da bicicleta como… tempero. Colocamos o objeto de forma que as rodas apontassem ao céu. Giramos o pneu com a força de quem está fazendo merda e enquanto ela girava rapidamente, raspamos pipocas até que elas ficassem suficientemente sujas para só então, comê-las.

A família sofreu um golpe duro com a morte trágica e repentina do Tio Careca. Marido, pai, genro e a pessoa mais querida do Recanto. Tão querido que homenagens a ele aconteceram ao longo daquele ano. Até hoje não sei qual era o seu verdadeiro nome e não tenho ideia do porquê o chamavam de “Careca” já que ele tinha uma cabeleira black power enorme.* Tampouco conheço as verdadeiras circunstâncias de sua morte. Alguns dizem que ele teve um choque térmico ao entrar na Billings após ter comido muito churrasco e batido laje debaixo do sol. Outros dizem que ele apenas se afogou mesmo sabendo nadar. Seja como for, os boatos não demoraram muito para correr e em questão de meia hora, todos já sabíamos que ele havia ido. Um luto generalizado tomou conta da quebrada. O dia ficou nublado. A esposa do falecido só conseguia chorar. Doía tanto que ela ficou completamente inapta de organizar o que sentia em palavras. As lágrimas inundaram os espaços vazios e as exigências sociais viraram necessidades supérfluas diante de um choro que precisava vazar. Copioso e desordenado como se sente quando a morte chega antes da hora.

Léo, o filho mais novo do casal, muito pequenininho, vez ou outra parecia entender o estado de angústia coletivo, mas seguia protegido pela capa de inocência e ignorância que só a tenra idade nos dá.  Letícia, a mais velha, da mesma idade que eu, não chorava. Poderia, mas não deu trabalho. Ficou todo o velório quieta. Entendia que nunca mais veria o pai e aceitou.

“Olha Carol” – me abriu uma das mãos onde se via um desenho – “… desenhei meu pai,” – retocava as partes que se apagaram com o seu suor… – “Nunca mais vou lavar a mão e papai vai ficar comigo pra sempre…”

Não sabia o que responder. Ficamos ali, duas crianças que mal tinham começado a viver, tentando processar e entender a morte com uma seriedade que não nos representava. 

O golpe pareceu ter sido ainda mais duro ao velho. Não parecia ter vergonha das lágrimas. “A morte é assim mesmo… Não tem jeito!” – completamente desestruturado, como se nunca tivesse visto alguém morrer antes. “Sem jeito. Sempre cafumbando no cangote da gente…”. Um choro profundo, desses que saem de um lugar cavado do peito. “Ela cafumba, cafumba, cafumba e um dia te ataca sorrateira… Pelas costas!”.

Um grupo de senhoras começou a entoar “Segura na mão de Deus…”, mas mal tinham começado a voz grave ecoou e interrompeu o coro. Seu Aulerindo começou a xingar o falecido. “Safado! Você vai me pagar!” Parecia bêbado, mas ele não bebia. Deus não deixava.  Destilou o ressentimento da gravidez da filha na adolescência. A falta de trabalho formal e até o local onde eles tinham comprado um terreno para iniciarem a própria vida. “Sempre soube que você não presta…” – queria  responsabilizar o morto por tanta dor. Os demais compartilhavam um silêncio incômodo e só a voz de seu Aulerindo se fazia ouvir. O choro da viúva aumentou. Tio Careca parecia triste. Não conseguia levantar e se defender das palavras cruéis que se aproveitavam de seu sistema nervoso inexistente. Naquele momento eu vi que morremos pros outros, a morte não tem nada a ver com o morto.

– Desgraçado! – falou apontando o dedo ao caixão. Queria atingir um nível mais medonho de raiva. Justo quando foi gritar próxima ofensa, foi interrompido:

– LERINDO! – exclamou Dona Maria indo de encontro ao marido com um passo ameaçador – Chega! Chega! – Não parecia a voz dela – Olhe pra teus netos que acabaram de perder o pai… Se não em respeito a tua filha, faça por eles e se recomponha, homem!

O pranto cessou, e até Tio Careca, mesmo estático e gelado, sorria reagindo à voz da senhora, que demorou muitos anos, mas saiu: decidida e esgotada. A frase surfou pela pequena sala, alcançou as paredes, voltou e subiu pela espinha dorsal de Aulerindo deixando-o paralisado. Ele não respondeu. Pela primeira vez na história daquele casamento, era ele quem estava sendo laçado. Sussurrou algo que parecia ser “desculpa” ao defunto e se retirou. Dona Maria seguiu seus passos. Nunca mais nos vimos depois daquele dia, mas gosto de pensar que Seu Aulerindo milagrosamente, parou de implicar com as crianças que cafumbavam em seus copos e com as pessoas que existiam em seu entorno e desde então, quem mandava na porra toda era ela.